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Gestão de escala

Fim do 6x1: checklist de 60 dias para o transporte

Sessenta dias parece muito tempo. Para redesenhar centenas de escalas interdependentes — que compartilham veículos, viagens, picos e motoristas — não é. E há um detalhe que muda tudo: pelo texto aprovado na Câmara, o relógio dos 60 dias só começaria a contar na promulgação, ou seja, quando a empresa já deveria estar pronta. O prazo não foi desenhado para planejar; foi desenhado para executar. Este checklist organiza a transição em fases: o que fazer agora, antes de qualquer promulgação, e o que fazer em cada trecho dos 60 dias.

Situação do projeto · atualizado em 19/10/2026
PEC do fim da 6x1: aprovada na Câmara (mai/2026) e aprovada no Senado em dois turnos (14/10/2026, 75 votos a 1).
Falta a promulgação pelo Congresso — o prazo de 60 dias para adaptação conta a partir dela.
As regras ainda NÃO estão em vigor.

Antes da promulgação (agora)

Tudo nesta fase independe do Senado — e é por isso que ela é a mais importante. Primeiro, meça a grade atual: carga semanal real por escala (incluindo apresentação, recolhe e deslocamentos) e o inventário de violações que já existem hoje. Esse baseline é o ponto de partida de toda a transição; sem ele, qualquer simulação parte de um número fictício. O Raio-X da Escala faz exatamente isso: audita as escalas reais contra todas as regras e devolve o retrato em reais, gratuitamente.

Segundo, levante a tabela de viagens real — a que roda na rua, não a do papel de dois anos atrás. É ela que define quantas horas-motorista a operação precisa cobrir. Terceiro, mapeie quem está em 44h exatas: esses motoristas são os primeiros a estourar qualquer teto novo, porque não têm margem nenhuma. Se o cronograma baixar a semana para 42h, cada um deles já nasce 2h acima do limite. Quarto, valide os dados de folha: se o registro de ponto e a folha não batem com a escala publicada, a simulação vai errar — e o erro aparece depois, como passivo.

Dias 1–15: a conta

Promulgado o texto, a primeira quinzena é de aritmética, não de desenho. Simule a grade atual no teto de 42h — o primeiro degrau do cronograma escalonado previsto no PL — e veja quantas escalas estouram e por quanto. Dimensione as contratações com a conta mais simples do checklist: o déficit total de horas da operação dividido pelo novo teto semanal dá o número de motoristas adicionais. E abra a conversa com o sindicato: rodízio de folgas, janelas de pega e regras de compensação passam pela CCT, e renegociar cláusula no dia 55 não é plano, é torcida.

A conta do dimensionamento (exemplo ilustrativo)
operação de 150 motoristas em 6 × 7h20 = 44h/semana
degrau 42h  déficit 2h × 150 = 300h/semana  →  300 ÷ 42 ≈ 7,1 → 8 motoristas a mais
alvo 40h  déficit 4h × 150 = 600h/semana  →  600 ÷ 40 = 15 motoristas a mais

Dias 16–40: a grade nova

Com a conta fechada, começa o desenho. Monte a grade no modelo novo seguindo o passo a passo da transição 6x1 → 5x2: blocos redistribuídos, dupla pegada casando os picos, teto diário respeitado. Redesenhe o rodízio de folgas — duas folgas por semana mudam a cobertura de sábado e domingo por completo — e confira cada virada de interjornada: é no retorno da folga, com larga tarde e pega cedo, que as 11 horas quebram. A tabela prática da interjornada resolve essa conferência virada a virada. Em paralelo, recrute e treine os motoristas dimensionados na fase anterior: o funil de CNH D, curso e treinamento de linha não espera a grade ficar pronta.

Dias 41–60: a prova real

Rode as duas grades em paralelo no papel: a velha operando, a nova simulada sobre a mesma tabela de viagens e os mesmos motoristas, dia a dia. É nessa sobreposição que aparecem a viagem descoberta, a pega órfã e a interjornada que o desenho não viu. Publique a grade nova com antecedência — motorista precisa reorganizar a vida em torno de folga e horário, e escala anunciada na véspera gera troca informal, que gera registro errado. E a partir do dia 1 do regime novo, registro de jornada fidedigno, sem exceção: se a transição parar na Justiça anos depois, é exatamente esse período que será escrutinado.

Os erros que vão custar caro

Três atalhos aparecem em toda transição apressada. O primeiro é esperar a promulgação para começar: diagnóstico, dimensionamento e recrutamento não cabem dentro dos 60 dias — quem espera o relógio, perde para o relógio. O segundo é migrar as violações junto com a grade: uma escala que hoje estoura interjornada e pega continua estourando no 5x2, só que agora com o carimbo de "grade nova e revisada" — é assim que o fim da 6x1 vira passivo trabalhista em vez de virar modernização. O terceiro é tratar o degrau de 42h como "depois eu vejo": pelo cronograma do PL, cada degrau redefiniria o que é hora extra, e a grade que ignora o degrau intermediário acumula extras estruturais por meses antes de alguém notar.

O prazo de 60 dias não é o tempo de fazer — é o tempo de terminar o que já devia ter começado.

Perguntas frequentes

Quando começa o prazo de 60 dias?

Pelo texto aprovado na Câmara, os 60 dias contariam a partir da promulgação — não da votação no Senado, nem do anúncio nos jornais. Ou seja: a data exata é imprevisível, e tudo o que não depende do prazo (diagnóstico, dimensionamento, recrutamento, conversa com o sindicato) deveria estar pronto antes de o relógio começar a correr.

O que acontece se a empresa não se adaptar no prazo?

Se o PL 1.838/2026 for aprovado como está, ao fim dos 60 dias cada hora trabalhada acima do teto vigente no cronograma viraria hora extra devida. Diferentemente de uma violação pontual, seria um estouro estrutural: repetido em cada motorista, toda semana, em todas as escalas, até a grade ser adaptada — um passivo que cresce de forma previsível e documentável.

Preciso contratar antes da promulgação?

Assinar carteira antes da aprovação final talvez seja prematuro — mas dimensionar e abrir o funil de recrutamento, não. O ciclo completo de contratar um motorista (CNH categoria D, curso de transporte coletivo, exames, treinamento de linha) costuma levar mais do que os 60 dias de transição. Quem só começa a recrutar na promulgação não termina no prazo.

O checklist vale para rodoviárias também?

A lógica, sim: diagnóstico da grade atual, simulação no teto novo, dimensionamento e grade redesenhada valem para qualquer operação de transporte. O que muda é o desenho — no rodoviário pesam viagens longas, pernoites e tempo de espera, enquanto no urbano pesam dupla pegada e picos. As regras do art. 235-C da CLT, que o PL não altera, continuariam valendo para os dois.