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Fim da escala 6x1: o que muda para o motorista urbano

A Câmara aprovou em dois turnos, em maio de 2026, a PEC que acaba com a escala 6x1 — e o projeto que a regulamenta, o PL 1.838/2026, seguiu para o Senado prevendo semana de 40 horas e padrão de folgas 5x2. Para o transporte coletivo urbano, que roda sete dias por semana sobre grades construídas em cima da semana de seis dias, é a maior mudança de jornada em décadas. Este artigo resume o que o texto prevê, o que continua igual e o que a operadora deveria fazer antes de qualquer promulgação.

Situação do projeto · atualizado em 19/10/2026
PEC do fim da 6x1: aprovada na Câmara (mai/2026) e aprovada no Senado em dois turnos (14/10/2026, 75 votos a 1).
Falta a promulgação pelo Congresso — o prazo de 60 dias para adaptação conta a partir dela.
As regras ainda NÃO estão em vigor.

O que a reforma muda, se aprovada

O pacote tem duas peças. A PEC altera o teto constitucional de jornada, encerrando o regime que permite seis dias de trabalho para um de folga. O PL 1.838/2026 regulamenta a mudança: semana de 40 horas e padrão de cinco dias de trabalho para dois de folga. O texto prevê, ainda, que a redução ocorra sem corte de salário — quem recebe por 44 horas hoje receberia o mesmo valor pelas 40.

O cronograma também já está desenhado no texto aprovado. Segundo o acordo costurado na Câmara, haveria 60 dias de transição a partir da promulgação e uma redução escalonada da jornada — de 44 para 42 e, então, 40 horas semanais — ao longo de 12 meses. Ou seja: se aprovado no Senado e promulgado, o relógio da adaptação começa a correr rápido. O próprio Senado publicou um panorama da disputa entre os que veem a medida como descanso devido e os que temem o impacto sobre custos — e é lá que o texto está agora.

Por que o transporte coletivo urbano é dos setores mais afetados

Ônibus urbano opera seis ou sete dias por semana, com pico de manhã e de tarde. Praticamente toda grade de transporte coletivo do país foi construída sobre a semana de seis dias: 44 horas distribuídas em 6 dias de 7h20, com folga alternada girando ao longo do mês para cobrir domingos e feriados. É essa aritmética que o texto em tramitação desmonta.

Com a semana de 40 horas em cinco dias, o dia padrão passa de 7h20 para 8h — mas cada motorista entrega um dia a menos de operação por semana. Não é um ajuste de margem: é uma reconstrução da grade inteira, do rodízio de folgas ao dimensionamento do quadro. Quem já passou pelo exercício de montar uma escala de motorista do zero sabe que mexer no número de dias trabalhados mexe em tudo ao mesmo tempo: pegas, rendições, dupla pegada e cobertura de pico.

A aritmética da mudança
hoje  6 dias × 7h20 = 44h/semana por motorista
texto do PL  5 dias × 8h00 = 40h/semana por motorista
frota de ~150 motoristas  150 × 4h = 600 horas/semana a menos de oferta de mão de obra
600h ÷ 40h = ~15 motoristas adicionais só para manter a mesma operação

E o exemplo acima é o cenário simples. Na prática a conta é pior, porque as 600 horas que somem não somem de forma uniforme: elas saem exatamente dos dias e horários em que a grade já é mais apertada.

O que NÃO muda com a reforma

O texto em tramitação mexe no teto semanal e no padrão de folgas — e em mais nada. Todas as regras que hoje geram passivo em escala de motorista continuam valendo por cima da nova semana:

  • CLT art. 235-C — limites de pega, tempo de direção, intervalos e dupla pegada seguem intactos. O guia completo do art. 235-C continua sendo leitura obrigatória para quem monta grade.
  • Interjornada de 11h — o descanso entre jornadas, reforçado pela ADI 5.322, não é tocado pelo projeto. A tabela prática da interjornada de 11h vale igual na semana de 40 horas.
  • Pausas e DSR — intrajornada, intervalos entre pegas e descanso semanal remunerado permanecem como estão.

Em outras palavras: se aprovado, o fim da 6x1 não substitui nenhuma regra atual — ele adiciona uma restrição nova em cima de todas as que já existem. Uma grade 5x2 desenhada às pressas pode cumprir as 40 horas e, ainda assim, estourar interjornada e dupla pegada todos os dias. É o cenário que detalhamos em como o fim da 6x1 pode multiplicar o passivo trabalhista.

O que a operadora deve fazer agora

Esperar a promulgação para começar a planejar é entregar a transição ao improviso — com 60 dias no relógio. O caminho prudente tem três passos, todos possíveis hoje:

  • Medir a grade atual. Antes de redesenhar qualquer coisa, saiba onde a escala de hoje já está fora: pegas acima do limite, intervalos suprimidos, interjornadas violadas. Transição boa começa de uma base limpa.
  • Simular a versão 40h. Rode a sua operação no papel com 5 dias × 8h e veja onde a cobertura quebra — quais linhas, quais horários, quais dias. O passo a passo de como adaptar a escala 6x1 para 5x2 mostra o método.
  • Dimensionar o quadro. A conta do exemplo acima dá a ordem de grandeza: contratar, treinar e habilitar motorista leva meses, não 60 dias. Quem só descobrir o déficit na promulgação vai cobri-lo com hora extra — exatamente o que a reforma pretende limitar.

O Raio-X da Escala resolve o primeiro passo sem custo: ele lê a sua grade real e aponta, escala por escala, onde estão as violações de hoje — a fotografia de que você precisa antes de desenhar a grade de amanhã.

Regra de bolso da transição: ninguém redesenha bem uma grade que não mede. Quem já acompanha a conformidade da escala hoje troca de regime ajustando parâmetros; quem não mede vai redesenhar no escuro.

Perguntas frequentes

Quando o fim da escala 6x1 entra em vigor?

Ainda não há data. A PEC foi aprovada na Câmara em dois turnos em maio de 2026, e o PL 1.838/2026 está em tramitação no Senado. Se aprovado e promulgado, o texto prevê 60 dias de transição e redução escalonada de 44 para 42 e depois 40 horas semanais ao longo de 12 meses.

Motorista de ônibus urbano está incluído na regra?

Sim. O texto em tramitação não exclui o transporte coletivo urbano: o novo teto semanal valeria para motoristas celetistas, somando-se às regras específicas da categoria, como o art. 235-C da CLT, que continuam em vigor.

O salário do motorista pode ser reduzido com a semana de 40 horas?

Não. O texto aprovado na Câmara prevê expressamente a redução da jornada sem redução de salário. Se aprovado, o motorista passaria a trabalhar menos horas mantendo a mesma remuneração.

A interjornada de 11h continua valendo?

Sim. A reforma trata do teto semanal e do padrão de folgas. O descanso de 11 horas entre jornadas, reforçado pela ADI 5.322, os intervalos do art. 235-C e o descanso semanal remunerado continuam aplicáveis por cima da nova regra.